quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sentimentos, morte e Aaron. (Por Beatriz Hirata)


   A noite caia gelada e silenciosa e todos dormiam. Havia somente um homem que andava em meio à escuridão totalmente sem rumo, apenas seguindo o caminho que os seus pés traçavam. O frio da noite não impedia que os pensamentos perturbadores saíssem e entrassem em sua mente, deixando-o totalmente confuso, culpado e solitário. As preocupações davam milhões de voltas em sua cabeça, deixando os pensamentos mais desordenados.
   As preocupações não se punham como o sol no horizonte e não acabavam como o dia acaba à meia-noite. Ele se preocupava com os amigos, com os estudos, com a família e com a aparência. Mas nenhuma dessas preocupações estava próxima a preocupação que ele tem pelo bem estar da garota que ama.
Ele era incrivelmente bonito e tinha a vida perfeita, nada lhe faltava. Ele estudava e tinha um bom status social, tinha muitos amigos e garotas lhe caiam aos pés. Tocava instrumentos e sabia conversar sobre todos os assuntos. Sabia muito bem como seduzir uma mulher e como prender a atenção dela ou como conquistar amigos. Mas ter a vida perfeita não é sinônimo de ser feliz, tanto que Aaron era solitário e ainda sentia um amor incondicional por Mel.
   A solidão o acompanhava desde que ele deixou a amada, desde que ele a viu partir com lágrimas nos olhos e mágoa no coração. Aaron achava que o namoro não daria certo e errou feio ao separar-se dela. Mal ele sabia que Mel estava disposta a tentar fazer tudo dar certo, que ela queria que os dois ficassem juntos para sempre.
   E a separação só fez ele ver o quando ele a amava e que os dias sem tê-la por perto para abraçar eram totalmente vazios, totalmente perdidos. E dia após dia, a vontade de dizer a ela que a amava desde a primeira vez que a viu e que nunca deixou de amá-la, aumentava. Era uma vontade incontrolável e ele gritaria pra ela se fosse preciso, mas ele apenas queria que ela ouvisse. Aaron queria que Mel soubesse que ele a amava muito e quando ele disse que os dois teriam que terminar, o que ele mais queria era ficar perto dela.
   Todo minuto e todo segundo, ele só pensava nela e no quanto ele foi burro por deixá-la, por fazê-la partir. Ele não falava, mas ele pensava nela logo que acordava e antes de ir dormir. Ia dormir pedindo pra sonhar com ela e acordava agradecendo por ter sonhado com a amada. E todo dia lembrava a forma como o corpo dela aquecia o dele no frio ou do jeito que ela o abraçava e também lembrava da forma como o jeito dela o fazia sorrir.
   Aaron havia tentado substituí-la por outras, mas nenhuma tinha o beijo tão doce como o dela ou o cheiro tão agradável que emanava da pele. Nenhuma tinha os olhos dela ou o jeito de sorrir e se mover. Elas não faziam ele sorrir com o jeito extrovertido delas como Mel fazia e elas não compreendiam a forma como ele se sentia. Nenhuma delas tinha o mesmo brilho nos olhos ou o sorriso bonito que ela tinha.
   Ele viu quantas vezes ele devia ter dito “eu te amo” e não disse e quantas vezes ele devia ter dito “você é linda” e optou por não dizer. Viu que ele devia ter feito muitas coisas por ela e simplesmente não fez, viu que podia tê-la ouvido e não ouviu. E a perdeu por fazer a coisa errada mas que ele achava melhor. Ele percebeu o quanto isso dói dentro de si mesmo, o quanto a dor da perda dói porém agora ele sofre o mesmo que ela sofreu.
  Quando ele lia um livro, ele se lembrava de ela dizer que ele tinha que ler os livros com mais atenção. Lembrava que ela dizia que as pesquisas tinham que ser bem feitas, lembrava das musicas que eles ouviam e do jeito que ela dizia que a musica lembrava ele. Ele se lembrava das fotos que tiraram e dos momentos que tiveram e de repente ele sentiu o rosto arder. Sim, lágrimas caiam de seu rosto de forma involuntária e a luta para pará-las seria uma eterna perda.
   E Aaron entrou em sua casa, e fechou a porta logo depois de si. O ambiente estava escuro e era assim que ultimamente ele havia se sentido melhor. Deixou o corpo cair em uma poltrona confortável e chorou ainda mais por lembrar que a maior parte das coisas que aconteceram entre ele e Mel havia acontecido ali.
Houve um barulho e então as luzes se acenderam. Não sabia como ele tinha conseguido entrar, mas o atual namorado de sua amada estava em sua casa, empunhando uma faca de sua cozinha. E viu a amada atrás dele, totalmente apavorada e com medo do que o namorado poderia fazer.
   John, namorado de Mel, não hesitou, foi atacar Aaron. Golpes eram trocados e gritos eram ouvidos. Em pouco tempo tudo estava quebrado e ensangüentado. A briga não pararia tão rápido, porém Aaron não gostaria que a amada o visse morrendo, já que ele tinha certeza que era isso o que aconteceria.
   Aproveitando o momento de distração de Aaron, John cravou a faca no peito do mesmo. A dor física que Aaron sentia não podia ser comparada com a dor que ele sentia por ver a mulher que ele mais ama em pleno desespero, porque ele havia sido esfaqueado. Então Aaron sentiu a faca sair de seu peito e entrar em sua barriga, e ser retirada e colocada em suas pernas e em todos os lugares.
  E ele chora porque sabe que morrerá sem ouvir um ultimo “eu te amo” de Mel ou sem poder dizer que a ama. Vê que morrerá sem o amor da vida dele saber o verdadeiro sentimento que ele tem por ela, morrerá sem ter tentado estar com ela novamente, sempre acreditando que amanha era o dia mais apropriado para fazer as coisas e acreditando que um dia o amanha será o nosso ultimo dia.
   Misteriosamente John cansou-se, se levantando e se retirando do cômodo. Aaron sentiu Mel abraçando-o, como se fosse algo que à muito tempo ela quisesse. Sentiu o seu corpo fraco e quase sem vida parar de respondê-lo e viu que as lágrimas dela se misturarem com as lágrimas que ele tinha no rosto. E ele deu seu ultimo suspiro e morreu. Mas não sem antes dizer “eu amo você”.

FIM.

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